Construções sustentáveis: entrevista com Khosrow Ghavami

Para conhecer um pouco mais sobre as tecnologias não-convencionais de construção civil, o Fórum conversou com o professor Khosrow Ghavami, que é graduado em Engenharia Civil e Mestre pela Universidade Drudjbi Narodov – Moscou (1968) e doutor pela Imperial College de Londres (1976), além de pesquisador do CNPq desde 1984.

"Devemos refletir sobre os materiais que são usados aqui no Brasil, como cimento, concreto, que não são apropriados para o nosso clima". Este desafio lançado pelo engenheiro Khosrow Ghavami, professor titular do Departamento de Engenharia Civil da PUC-RJ, tem sido alcançado cada dia mais com descobertas que fazem dos recursos disponíveis na natureza ótimos materiais para erguer casas. "Os materiais industrializados não somente poluem o nosso ar, como geram desigualdades sócio-econômicas, que poderiam ser sanadas através do processamento desses materiais naturais", afirma.

Para conhecer um pouco mais sobre as tecnologias não-convencionais de construção civil, o Fórum Permanente de Desenvolvimento Estratégico do Estado do Rio conversou com o professor, que é graduado em Engenharia Civil e Mestre pela Universidade Drudjbi Narodov – Moscou (1968) e doutor pela Imperial College de Londres (1976), além de pesquisador do CNPq desde 1984. Trabalhou anos na Inglaterra, e em 1978 foi chamado para trabalhar no Brasil. Atualmente é consultor e coordenador de diversos projetos em universidades nacionais, como Unicamp, UFRJ e UFMG e internacionais, como Princeton, Pittsburg e Cambridge. Há mais de dez anos, pertencente ao grupo ABMTENC (Associação Brasileira de Materiais e Tecnologias Não-Convencionais), pesquisa os seguintes materiais para a construção civil: bambu, fibras vegetais, arquitetura da terra, pedra, cal, entre outros.

Professor, como nasceu seu interesse por estudar o potencial dos recursos naturais para a construção civil?

Meus estudos se baseiam em uma filosofia: os países industrializados, através de seus processos tecnológicos, provocaram muita poluição ao longo de séculos, liberando quantidades exorbitantes de CO2 na atmosfera. O que meus estudos propõem são a utilização de materiais e tecnologias não-convencionais, que as civilizações antigas usavam. Por exemplo, o bambu, a terra, as pedras, a cal, a palha, eram materiais de construção muito comuns na Ásia há dez mil anos. O povo trabalhava com essas técnicas e tinham escolas, onde esse ensinamento era transmitido. Com o final do século XIX, os europeus criaram as indústrias, e com elas vieram as invasões, a escravidão, tudo para alimentar essa nova lógica de lucro/industrialização. O concreto e o aço, por exemplo, são materiais específicos para climas frios e quando usamos isso em todas as partes do mundo, criamos a necessidade, por exemplo, no caso do Brasil, um país tropical, de ter ar-condicionado, gastando grandes quantidades de energia.

OLALACMSFOTO02OLALACMS E como foi o início do seu trabalho no Brasil?

Quando cheguei ao Brasil em 1978 vi que a indústria usava cimento-amianto, material cancerígeno, que na Inglaterra era proibido por lei. Aquilo me incomodou muito. Então, organizei um laboratório de estudos de recursos naturais e pensei em usar fibra de coco e resinas como cal, misturado com cimento. Na Pérsia, onde nasci, eles usavam solo misturado com palha de trigo e construíam grandes monumentos. Na época, fui ao Jardim Botânico e encontrei muitos bambus e eles me disseram que era praga. Pensei que deveria ser um material muito resistente, já que ele tem 15cm de diâmetro e cresce 25m. Com o investimento da Finep organizei estudos sobre estruturas metálicas e comecei a utilizar o bambu. Vi que a resistência era igual a do aço. Colocamos a vara do bambu como armadura de aço dentro de concreto. O bambu tem dois problemas: insetos e fungos e a absorção de água, por isso a necessidade de combiná-lo com outros materiais. Se bem tratado é melhor do que aço, já que não tem problema de corrosão.

Qual é o foco do seu trabalho no Brasil?

Busco junto com meus alunos refletir sobre os materiais que são usados aqui no Brasil, como cimento, concreto, que não são apropriados para o nosso clima. Estudo com meus alunos os recursos naturais como materiais disponíveis que podem ser alternativas para uma construção civil mais eficiente. Isso para mim é sustentabilidade. Os materiais industrializados não somente poluem o nosso ar, como geram desigualdades sócio-econômicas, que poderiam ser sanadas através do processamento desses materiais naturais.

OLALACMSFOTO03OLALACMS Qual a diferença entre o aço, cimento e o bambu, no aspecto ambiental?

Para cada tonelada de aço utilizado na construção civil, são emitidas duas toneladas de gás carbônico (CO2), e para cada tonelada de cimento, emitimos mais do que uma tonelada de CO2. Enquanto que um hectare de bambu, por exemplo, no Japão, absorve 2 toneladas de gás carbônico e produz oxigênio. Para produzir um metro cúbico de aço, gastamos 50 vezes mais energia em relação ao bambu, por isso percebemos que o bambu é superior.

Há preconceito para com esses recursos naturais, principalmente o bambu?

Há 30 anos, no começo dos meus estudos, alguns colegas com PHD, da Inglaterra, me disseram que isso era impossível e que a cultura brasileira não aceitaria essas práticas, já que aqui se aceita tudo que os países dominantes fazem. Precisamos divulgar o nosso trabalho através da mídia, só assim poderemos ser conhecidos e ganharemos credibilidade.

E em relação ao preço? As práticas sustentáveis são acessíveis?

Preço é especulação. O barril de petróleo é um exemplo. Hoje há a manipulação por parte das indústrias pesadas. Precisamos refletir sobre a realidade do mundo atual. Estamos destruindo ele. Um estudo que realizamos em Cambridge nos anos de 1980, mostrou cientificamente que o bambu é superior a todos os materiais tecnológicos existentes. Do ponto de vista energético, as práticas são baratas, mas quanto aos materiais, com a demanda aumentando, o preço tende a aumentar, porém nunca chegando ao preço dos materiais convencionais.

OLALACMSFOTO04OLALACMS Que países no mundo possuem um solo adequado para a plantação de bambu? Seria possível usá-lo em escala mundial?

Todos os países tropicais e subtropicais podem produzir bambu. O bambu cresce em média de 30cm a 90cm, dependendo da espécie, em 24 horas. Hoje em dia, graças aos estudos sistemáticos que comecei, o bambu já é distribuído no mundo inteiro com fim de construção civil. Nos EUA e na Europa já existem empresas usando o bambu em larga escala e obtendo lucro. O que falta para o Brasil é confiança, visão e investimentos em pesquisa. O empresariado brasileiro ainda está adormecido para as práticas sustentáveis e, quando investem, procuram estudos estrangeiros.

Qual a posição do Brasil nesse cenário? Há perspectiva de crescimento para a construção civil sustentável?

Podemos criar uma indústria de materiais ecológicos, sustentáveis. O Brasil é um país privilegiado, com muitas plantas para a construção civil, pouco estudadas. As universidades precisam levar em frente esses estudos, o Brasil pode ser a oitava economia do mundo, mas o povo vive mal. Hoje em dia, há uma demanda grande para estas práticas, No mundo todo existem pessoas interessadas neste assunto. E isso só tende a aumentar, já que o meio ambiente não pode agüentar mais. Meu objetivo na universidade é incentivar os jovens a tomarem iniciativas e não depender somente dos professores.

OLALACMSFOTO05OLALACMS Como está a construção sustentável no Estado do Rio? As recentes catástrofes apontam a necessidade de mudança, em sua opinião?

Tenho muitos ex-alunos da UFRJ, Uenf, dentre outras, pesquisando alternativas. Porém precisamos sair um pouco da teoria e praticarmos em larga escala o que estudamos. As enchentes mostraram o mau planejamento dessas habitações, quanto à localização e estrutura. A terra tem precipitação, a água consegue entrar no solo, mas com o asfalto, o concreto e a vida moderna, a água não tem para onde ser escoada. Uma solução para isso seriam os chamados telhados verdes, que absorvem a água, e depois utilizar a água dentro de casa.

Qual seria o país modelo em construção sustentável?

A Alemanha faz um trabalho muito avançado e lidera este mercado. A França e a Inglaterra também estão bem inseridas nessas novas práticas. Na verdade, o mundo inteiro está indo atrás de normas para construir de acordo com a ecologia, o chamado Leed. Isso é uma necessidade iminente.

Para concluirmos, quais incentivos reais o governo poderia dar para estimular este tipo de construção?

O Governo podia investir mais através da abertura de mais editais, incentivando pesquisadores a trabalharem nessa linha sustentável. A demanda hoje é muito grande e o Brasil deve se posicionar neste novo cenário.